Considerada a vacina com testagem mais segura, CoronaVac é alvo de disputas políticas

 Considerada a vacina com testagem mais segura, CoronaVac é alvo de disputas políticas

 Governador de São Paulo João Doria (PSDB-SP) é chamado de “gerente de vendas” ao incentivar a compra de 100 milhões de doses da vacina CoronaVac pelo governo federal

Recebemos, por meio de parceria com o aplicativo Eu Fiscalizo da Fiocruz (disponível para Android e iOS), uma publicação que trata o governador do estado de São Paulo, João Doria como “gerente de vendas” ao propor ao governo federal a compra de 100 milhões de doses da vacina CoronaVac desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan. A publicação foi produzida pelo portal Terra Brasil Notícias.

Post do portal Terra Brasil Notícias que aborda o apoio de Doria à vacina CoronaVac. Foto: Reprodução/Instagram

Nesse sentido, é notável a presença da disputa ideológica entre governo do estado de São Paulo e governo federal nos meandros de compra e produção da vacina contra a COVID-19. O portal Terra Brasil Notícias realizou a publicação em meio ao jogo de interesses.

Contextualizando a compra da vacina – Com informações do governo do estado de São Paulo, em 14 de setembro foi anunciada a arrecadação de R$ 97 milhões em doações da iniciativa privada para o novo projeto da fábrica do Instituto Butantan. Os recursos permitirão a realização das obras necessárias para a futura produção da vacina contra o coronavírus, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac Biotech em parceria com o Butantan. O projeto executivo está em processo de contratação e as obras devem ser iniciadas em novembro.

O anúncio ainda propunha que até dezembro, o Instituto Butantan deveria receber 46 milhões de doses da Coronavac. E a previsão é de que até março de 2021, o Estado recebesse mais 15 milhões de doses. Antes do cancelamento pelo governo federal, o governo de São Paulo considerava a possibilidade de aquisição de mais 100 milhões de doses no próximo ano, dependendo do suporte do Ministério da Saúde.

Com informações do Uol, em 21 de outubro o presidente Jair Bolsonaro afirmou ter ordenado o cancelamento do acordo feito pelo Ministério da Saúde com o governo de São Paulo para aquisição de 46 milhões de doses da CoronaVac, a vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan (SP) para combater o novo coronavírus.

O protocolo de intenções foi assinado no dia 19 de outubro e anunciado no dia seguinte em reunião realizada entre governadores e o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello.

“Já mandei cancelar, o presidente sou eu, não abro mão da minha autoridade (…) Até porque estaria comprando uma vacina que ninguém está interessado nela, a não ser nós”, frisou o presidente Jair Bolsonaro.

Ainda de acordo com o Uol, o presidente, em suas redes sociais, já havia demonstrado sua insatisfação com a repercussão das negociações referentes ao acordo mediado pelo ministro Pazuello para compra da CoronaVac. Bolsonaro recebeu várias críticas de apoiadores —alguns se disseram “traídos”— e mensagens que pediam que ele não adquirisse vacina produzida por uma “ditadura comunista”. Em resposta, disse que não compraria a “vacina chinesa de João Doria” e que o povo brasileiro não seria “cobaia”.

Após reclamação de Bolsonaro na internet, o secretário-executivo do ministério, Élcio Franco, negou qualquer acordo com o governo de São Paulo e disse que o que houve foi um “protocolo de intenção” assinado com o Instituto Butantan. Reforçou que o governo não comprará vacinas vindas da China.

Divergências políticas entre Bolsonaro e Dória – Com informações de A Época, o cancelamento por parte de Bolsonaro não foi uma surpresa. O presidente é conhecido por nutrir posições negacionistas sobre a gravidade da pandemia e por defender receitas de cura sem amparo científico. Também são amplamente conhecidos sua implicância ideológica com a China e seu hábito de interferir em políticas anunciadas pelo Ministério da Saúde.

O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta contou à Época que, no período em que comandou a pasta, embora ainda não houvesse discussões avançadas sobre a vacina, sempre que a palavra China era evocada uma confusão se armava. Mandetta contou que não era incomum que se referissem, no Palácio do Planalto, ao embaixador chinês como “agitador comunista”. “Eles tinham uma paranoia de que o embaixador chinês tinha estado no Chile e na Argentina e trabalhava para fazer agitações de esquerda”. Também havia restrições a qualquer agenda que envolvesse o governador de São Paulo. “O problema dele é o entorno, são os terraplanistas, a rede social, gente que não tem a menor noção de como se faz uma vacina. O Butantan não começou no governo Doria. É um instituto importantíssimo. Bolsonaro tinha de estar parabenizando o trabalho deles”.

No governo paulista, há algumas semanas já se discutia que a disputa política entre presidente e governador poderia dificultar as negociações com o Ministério da Saúde e o Instituto Butantan, dirigido por Dimas Covas. Nas palavras de um integrante da linha de frente do combate ao novo coronavírus no estado, “Bolsonaro não ia querer jogar água no moinho do Doria”. Segundo A Época apurou, em uma das reuniões realizadas às sextas-feiras entre estado de São Paulo, prefeitura de São Paulo, Comitê do Novo Coronavírus e o Butantan, Dimas Covas fez um retrato preocupante das negociações. Na ocasião, Doria avaliou que o ministério estava tentando ganhar tempo e que o estado precisava pensar numa alternativa para custear a compra. O plano B seria fazer uma vacinação apenas da população paulista, caso a vacina fosse realmente aprovada e Bolsonaro resistisse em usá-la. O problema é de onde viria o dinheiro para comprar as doses. O plano A é que o Ministério da Saúde compre os 46 milhões de doses que o laboratório chinês entregará ao Butantan até dezembro. O feito seria usado como cartada em uma possível candidatura de Doria à Presidência em 2022.

Por que a CoronaVac tem a testagem mais eficaz entre as vacinas contra a COVID-19? – Em consonância com a Agência Brasil, o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, disse no dia 19 de outubro que, dentre todas as vacinas que estão em desenvolvimento e que estão sendo testadas contra o novo coronavírus, a vacina chinesa, chamada de CoronaVac, é a que se mostrou mais segura. Isso significa que ela não vem apresentando efeitos colaterais graves.

“A vacina Butantan é a mais segura em termos de efeitos colaterais. É a vacina mais segura neste momento não só no Brasil, mas no mundo”, disse Dimas Covas.

Estudos feitos no Brasil com 9 mil voluntários da área da saúde, com idades entre 18 e 59 anos, vem comprovando os resultados de segurança que já haviam sido registrados em testes de fases 1 e 2 na China. No Brasil, apenas 35% desses 9 mil voluntários tiveram reações adversas leves após a aplicação da vacina, tais como dor no local da aplicação ou dor de cabeça. Não houve qualquer registro de efeito colateral grave durante a testagem.

Nesta coletiva de imprensa em que foi feito o anúncio, foi apresentado um comparativo com outras quatro vacinas também em teste no Brasil, desenvolvidas pelas empresas Moderna, BioNTech/FoSun/Pfizer, CanSino e AstraZeneca/Oxford.

Nestas quatro vacinas, a incidência de efeitos adversos variou entre 77% e 100%. “Portanto, [a CoronaVac] é a vacina mais segura não só no Brasil, mas no mundo”, disse Covas.

A BBC Brasil lista 7 características para entender a CoronaVac, entre os itens mencionados há dois motivos de já se esperar que a vacina fosse ser segura.

Segundo o veículo de comunicação, o primeiro é que ela usa uma tecnologia bastante tradicional, diz o imunologista Aguinaldo Pinto, professor da Universidade Federal de Santa Catarina.

Essa vacina utiliza uma versão inativada do vírus. Isso quer dizer que o vírus foi exposto ao calor ou a produtos químicos para não ser capaz de se reproduzir. Uma vez injetado na corrente sanguínea, o vírus é detectado pelo sistema imunológico, que desenvolve formas de combatê-lo.

O segundo motivo é que os testes no Brasil apenas confirmaram o que já havia sido comprovado em etapas anteriores da pesquisa, como o próprio governo de São Paulo indicou.

Antes de ser testada aqui, a CoronaVac foi testada na China para verificar sua capacidade de gerar uma reação do sistema imune e sua segurança e obteve bons resultados em ambos os critérios.

*Imagem da capa: Reuters/ Thomas Peter

Edison Mineiro

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