Vacina inglesa para Covid-19 não foi produzida a partir de fetos abortados

 Vacina inglesa para Covid-19 não foi produzida a partir de fetos abortados

É enganosa a afirmação que vacina de Oxford é proveniente de “células de fetos abortados”

Linhagens de células são comumente utilizadas para a multiplicação dos vírus atenuados, mas não chegam a compor a fórmula da vacina

Recebemos, por meio de parceria com o aplicativo Eu Fiscalizo da Fiocruz (disponível para Android e iOS), uma mensagem que circula com a seguinte chamada: “Produzidas a partir de células de bebês abortados, vacina contra Covid é testada em São Paulo” e o link da matéria. A informação se trata de uma matéria produzida pelo portal Brasil Livre, mas que viralizou ao ser compartilhada no twitter pelo site Estudos Nacionais.

Tweet do portal Estudos Nacionais afirmando que vacina utiliza células de bebês abortados. Reprodução/Twitter

A primeira parte do texto contém informações da Agência Brasil, e informa que a vacina inglesa está sendo testada em São Paulo, na Unifesp, em profissionais de saúde entre 18 e 55 anos. A Agência Brasil é uma fonte confiável e verificada, e esta parte do texto é verdadeira.

Porém, na parte seguinte, a matéria replicada pelo Estudos Nacionais se baseia em informações de entidades mundiais pró-vida para construir a informação, como a organização Children of God for Life, intitulada aqui da seguinte forma: líder mundial pró-vida na campanha de vacinas éticas, medicamentos e produtos para o consumidor. A entidade divulgou um arquivo dividindo o desenvolvimento mundial das vacinas em dois: amarelo, como “produzida moralmente” e vermelho por “utilizar células de bebês abortados”.

Na mesma publicação ainda se remetem ao portal Life Site News:

O portal Life Site News também informou recentemente que alguns pioneiros da Vacina covid-19, dentre eles a da Universidade de Oxford, usavam uma linha de células renais fetais humanas chamada HEK-293 para desenvolver suas vacinas experimentais.

O HEK-293 foi originalmente derivado de tecido renal retirado de uma menina que foi abortada na Holanda em 1972 e posteriormente desenvolvida em uma linhagem celular em um laboratório em 1973.

Com informações do projeto Comprova, no próprio texto do Estudos Nacionais já explica que as células foram retiradas de um feto abortado legalmente na Holanda nos anos de 1970 e desenvolvidas em laboratório a partir da imortalização — ou seja, a capacidade perene de divisão. Elas deram origem à linhagem de células HEK-293 (a sigla vem do inglês “human embryonic kidney”, ou seja, rim de embrião humano), que daquele momento até então é usada na indústria farmacêutica em todo o mundo.

Linhagens celulares desenvolvidas a partir de tecidos humanos são comuns em pesquisas científicas. A HEK-293 é a mais comum, mas a PER. C6 (também de origem fetal) e a HeLa (feita com tecido retirado de uma mulher adulta) são exemplos de outras linhagens usadas. As culturas têm o propósito de servir para os cientistas como determinada substância age nas células humanas, sem a necessidade de colocar vidas de pacientes em risco. No caso das vacinas, as células da linhagem servem como “pequenas fábricas” para que os vírus atenuados possam se multiplicar (veja mais detalhes abaixo), não fazem parte da composição do produto final e nem geram novos abortos.

A postagem é enganosa, uma vez que induz ao leitor a acreditar que bebês são abortados para que a vacina possa ser produzida. Essa confusão fica clara nos comentários no Twitter. “Não tomarei”, disse um deles. “Tome a vacina e tenha sangue inocente nas mãos”, escreveu uma mulher. Outra especulou: “Meu Deus, isso tudo pra (sic) liberarem o aborto, tem método”. “Prefiro pegar o (sic) Covid e me tratar com Hidroxicloroquina”, resumiu um dos usuários que comentou o tweet.

A polêmica sobre uso de células embrionárias – Conforme um artigo publicado em junho na revista Science, pelo menos cinco vacinas contra a covid-19 em desenvolvimento hoje no mundo, inclusive a de Oxford (ChAdOx1 nCoV-19), usam culturas de células de origem embrionária.

A mais comum é conhecida como HEK-293, desenvolvida a partir do tecido renal colhido de um feto abortado legalmente na Holanda em 1973. As células foram alteradas geneticamente para que pudessem ser reproduzidas em laboratório. “Uma linhagem celular é algo estabelecido a partir da imortalização – ou seja, a capacidade perene de divisão – de uma célula, em geral usando um vírus, como foi nesse caso, um adenovírus”, afirmou Bonorino ao Comprova.

A linhagem HEK-293 é usada até o momento, mundialmente, em estudos sobre medicamentos e vacinas. A importância de utilizar linhagens celulares de origem humana em pesquisas desse tipo, segundo Bonorino, é que “para fabricar proteínas que funcionem em seres humanos, elas precisam ser sintetizadas por células humanas”.

A pesquisadora acrescentou: “Há uma série de processos na célula que são necessários para finalizar a proteína. Por exemplo, a vacina da Hepatite B, que consiste em uma única proteína do vírus. Se ela não for fabricada em uma célula humana, ela não vai gerar a resposta adequada na pessoa vacinada”.

Bonorino ressaltou também que “as células [embrionárias] não entram na composição da vacina. Apenas a proteína produzida por elas, ou o vírus replicado nelas, que sai da célula e fica no meio de cultura, é coletado e purificado para a formulação vacinal”. Não é necessário mais tecido fetal para manter as células se multiplicando, ou seja, o uso da cultura HEK 293 não provoca novos abortos.

 A vacina e a desinformação – Com informações da BBC Brasil, o episódio, em questão, tinha por intuito alertar sobre supostos aspectos eticamente controversos no desenvolvimento destas vacinas, ao ligar esse tipo de trabalho à prática do aborto.

No entanto, trata-se de mais um episódio de uma campanha de desinformação contra a vacina para COVID-19, que é quase tão duradoura quanto a própria pandemia e envolveu até agora Bill Gates, microchips para controle populacional e crianças no Senegal.

Muitas dessas supostas notícias são, na realidade, versões recauchutadas de informações falsas que já haviam sido divulgadas antes por pessoas contrárias a qualquer tipo de vacinação, diz João Henrique Rafael Junior a BBC Brasil. O pesquisador faz parte do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, além de ser idealizador do projeto União Pró-Vacina, que combate a desinformação sobre o tema.

“É possível encontrar referências à questão da vacina com células de fetos abortados que remontam a no mínimo cinco anos atrás, assim como menções a Bill Gates. Essas teorias vão sendo reaproveitadas e repaginadas sempre que há algum tema em evidência”.

A produção de vacina –  O NUJOC Checagem publicou em julho o artigo “Vacinas: entenda o que são e como são feitas”. No texto, são esclarecidos questões sobre a produção das vacinas, o propósito, além do andamento das vacinas contra a COVID-19 que estão em andamento pelo mundo. Já verificamos, também, outro boato falso sobre as substâncias presentes nas vacinas.

Fabricio Campos

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