Clima quente não favorece o Brasil na luta contra o coronavírus

 Clima quente não favorece o Brasil na luta contra o coronavírus

Em vídeo, suposto médico passa informações questionáveis e errôneas sobre a pandemia

Tem circulado pelas redes sociais o vídeo de um senhor que se apresenta como doutor Jung Seiki Khan. Ele se apresenta como médico pediatra, e sua fala despertou dúvidas entre os internautas. Trata-se de um vídeo de cerca de dez minutos, em que ele faz afirmações sobre a Covid-19 e dá dicas de saúde para a audiência.

Ele diz ser médico neonatologista e intensivista, com experiência de quase vinte anos em UTI. Diz também que fez o vídeo a pedido das mães de seus pacientes. Ele não informa os hospitais onde trabalhou nem dá detalhes de sua formação.

Efetuamos a busca pelo registro com o nome indicado pelo homem na página do Conselho Federal de Medicina, para comprovar a condição de médico, mas não obtivemos sucesso. Também utilizamos o nome indicado como palavras-chave, com diversas variações, em pesquisa no Google, sem obter qualquer resultado que comprove a condição de médico.

Clima x coronavírus – O homem inicia o vídeo falando sobre a relação entre o clima e o novo coronavírus. Afirma nesse ponto que o clima favorece o Brasil, já que o coronavírus afeta mais os países de clima frio. Ele mostra nesse ponto um mapa-múndi, com os países mais afetados em destaque vermelho.

O clima e o coronavírus: hipóteses. Imagem: Captura de tela/WhatsApp

Como o Brasil não tem um inverno rigoroso, ele conclui que o novo coronavírus não vai afetar o país de forma dramática.

A afirmação de que o Brasil é beneficiado pelo inverno menos rigoroso na luta contra o novo coronavírus é falsa. Os números de infecção pela Covid-19 começaram a crescer com o início do outono, chegando a superar mil mortes por dia nas últimas semanas. O inverno se aproxima e os números só fazem crescer. O país já é o segundo em casos no mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, e superou a Itália em número de mortos, que já supera 37 mil. Estima-se que esses números estejam muito aquém da realidade, dadas as dificuldades de coleta e atualização dos dados.

Se em tese existe menor incidência de doenças causadas por vírus da gripe e do coronavírus nos países quentes, na realidade nada sustenta a afirmação do suposto médico de que o clima favorece o Brasil, pois outros fatores se mostraram decisivos no avanço da pandemia do novo coronavírus. É o caso da testagem e do isolamento social, ambos com baixos índices de efetividade no país, que vê o número de casos crescer enquanto em outros países há tendência de declínio.

Mortalidade – Sobre a mortalidade, Jung Seiki Khan afirma que ela tende a ser baixa no país. Ele compara o Brasil com a Itália, ressaltando que lá o frio é mais intenso, as pessoas eram mais velhas e moram mais próximas umas das outras: “Itália tem mais idoso, faz frio e tudo morando um em cima do outro”.

Ele menciona estudo recente, segundo o qual as mortes na Itália estariam superestimadas, pois muitos teriam morrido de outras causas, tendo apenas 12% morrido por coronavírus. Ele diz que no Brasil “estranhamente ninguém está falado sobre isso”.

O estudo mencionado pelo suposto médico é fake news. Vários veículos desmentiram a informação, como a Folha, em matéria que você pode acessar aqui. Nós do Nujoc Checagem também, nessa matéria aqui. Sobre a mortalidade, o Brasil bateu a marca de mais de uma morte por minuto na semana passada, o que coloca o país no olho do furacão. Um estudo conduzido nos EUA, detalhado nessa matéria aqui, estima que em agosto atingiremos a marca de 5 mil mortes por dia.

Jung Khan também afirma que, no estado de São Paulo, o governador João Dória teria ordenado: na dúvida, morreu alguém, morreu de coronavírus.

A afirmação de que o governador de São Paulo ordenou que todas as mortes no estado de São Paulo fossem atribuídas ao coronavírus não é verdadeira. Trata-se de boato disseminado no final do mês de março, checado como fake news pela equipe do jornal O Estado de São Paulo, que você pode acessar aqui.

Tratamento – O médico endossa o tratamento com hidroxicloroquina, azitromicina e zinco, que segundo ele é “super eficaz”.

A afirmação é controversa, pois os efeitos das drogas ainda estão sendo estudados. A OMS voltou a permitir testes com a hidroxicloroquina e no Brasil o Conselho Federal de Medicina passou a permitir seu uso em casos leves, condicionado à decisão do médico e ao consentimento do paciente. Até o momento, não há estudos que comprovem definitivamente os benefícios dessa abordagem.

Vitaminas e alimentação – Ao finalizar o vídeo, o médico dá dicas para a população se fortalecer no combate ao coronavírus. São elas: sair da bolha do medo, ter mais confiança, ter uma boa alimentação e fazer reposição das vitaminas C e D. Ele culpa a mídia, que teria interesses econômicos em espalhar o pânico entre a população, o que causaria um ciclo vicioso de medo e doença.

A afirmação carece de provas. A mídia tem servido como bode expiatório para muitos problemas, entre os quais os números crescentes da epidemia do novo coronavírus.

O próprio presidente da República costuma culpar os meios de comunicação pelos números da pandemia. Mas a democracia só sobrevive pela informação livre e o debate esclarecido, e esse tem sido o papel dos meios de comunicação responsáveis, que vêm prestando serviço de inestimável valor para a população. Em live realizada pelo Nujoc Checagem em 29 de maio com a professora doutora Marialva Barbosa, da UFRJ, ela destacou o papel importante que a mídia e a ciência vêm desempenhando para esclarecer a população no contexto da pandemia.

O ciclo da doença: imprecisão. Imagem: Reprodução/WhatsApp

O suposto médico prossegue, dando dicas: “Alimentação mais saudável. Bastante fruta, bastante água”. Ele ressalta que em sua milenar cultura de origem, a coreana, as refeições têm ao menos cinco cores de alimentos. “Quanto mais colorida é sua alimentação, isso vai te beneficiar”, recomenda.

“Seja mais otimista, seja mais positivista. Bola pra frente, Brasil!”, finaliza.

As dicas finais que o médico dá à audiência do vídeo valem como indicação geral para uma vida saudável, mas certamente não como medidas para a prevenção e o tratamento da Covid-19. Um sistema imunológico reforçado não garante por si só que a pessoa está protegida contra o novo coronavírus. Contra a Covid-19, segue valendo o isolamento, a higienização das mãos e o uso de máscaras como medidas preventivas. E o uso de vitaminas não pode ser abusivo, conforme alertam os especialistas nessa matéria aqui.

A ciência em xeque – O episódio recente de retratação da revista Lancet, que retirou da publicação um estudo sobre a ineficácia da hidroxicloroquina, acende o debate sobre os riscos da pressa para o trabalho científico. Texto do jornalista Hélio Gurovitz, do G1, analisa o episódio aqui.

Analistas lamentaram a falta de critério para aprovar e veicular resultados em um dos mais conceituados periódicos científicos do planeta. Mas a retratação é também um aspecto positivo, como bem lembrou o jornalista de ciência Marcelo Leite: mostra que a ciência só progride pelo reconhecimento dos pares, e dos erros e acertos cometidos. É nesse cenário que se colocam as falas dos médicos via redes sociais. O cuidado com a divulgação das informações sensíveis à saúde da população precisa ser discutido, dizem os especialistas.

O Nujoc Checagem é parceiro do aplicativo Eu Fiscalizo, da FioCruz. Por meio da parceria nos chegou a sugestão para o vídeo do suposto médico coreano. Você também pode nos enviar suas sugestões de matérias para checagem pelas redes sociais indicadas aqui na página ou pelo e-mail: nujoc.checagem@gmail.com.

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