Coronavírus sobrevive até três semanas em carne congelada? Veja se notícia é fato ou fake

 Coronavírus sobrevive até três semanas em carne congelada? Veja se notícia é fato ou fake

Nos últimos dias, a notícia de que o coronavírus sobrevive até três semanas em carne congelada vem sendo compartilhada na mídia nacional e internacional, mas será que é verdade? Confira a seguir a verificação do Nujoc Checagem e o que já pode ser dito sobre o caso.

A publicação é verdadeira sobre a descoberta, entretanto trata-se de um preprint, ou seja, um artigo que ainda não foi publicado em uma revista científica. Assim, tais estudos são publicados antes de revisão por pares, como é o caso do trabalho publicado no site bioRxiv no qual as notícias são baseadas, chamado “Seeding of outbreaks of COVID-19 by contaminated fresh and frozen food” e disponível aqui. Assim, ainda são trabalhos inconclusivos, mas o material já tem sido divulgado como algo inteiramente confiável e verificado, o que pode não ser o caso.

O próprio site deixa o seguinte aviso na parte superior da página: “O bioRxiv está recebendo muitos novos artigos sobre o coronavírus SARS-CoV-2. Um lembrete: estes são relatórios preliminares que não foram revisados ​​por pares. Eles não devem ser considerados conclusivos, orientar a prática clínica ou comportamento relacionado à saúde ou ser relatados na mídia como informação estabelecida.”

A infecção por alimentos contaminados não tem sido tratada como a principal forma de infecção entre os seres humanos, entretanto o estudo alega que a importação de alimentos contaminados pode levar a novos surtos de Covid-19 em locais onde a doença estava sob controle. Todavia, o próprio estudo trata como hipótese novos surtos em países com Covid-19 sob controle por importação de carne contaminada.

“Nosso trabalho de laboratório mostrou que o SARS-CoV-2 pode sobreviver ao tempo e às temperaturas associadas às condições de transporte e armazenamento associadas ao comércio internacional de alimentos. Ao adicionar SARS-CoV-2 a pedaços de frango, salmão e porco, não houve diminuição do vírus infeccioso após 21 dias a 4°C (refrigeração padrão) e –20°C (congelamento padrão)”, afirmam os autores do estudo.

O artigo continua na defesa de que “a contaminação de alimentos é possível e a sobrevivência do vírus durante o transporte e armazenamento é provável”. “Um manipulador de alimentos infectado tem o potencial de se tornar um caso índice de um novo surto. O mercado internacional de alimentos é enorme e até mesmo um evento muito improvável pode ocorrer de tempos em tempos”, completa o estudo.

A publicação de preprints preocupa cientistas

Durante a pandemia, trabalhos são publicados em larga escala e, no caso dos servidores de preprint, existem dois fatores adicionais que preocupam os cientistas: a falta de revisão dos pares e a divulgação em veículos de comunicação. Artigo de Denise-Marie Orway publicado em 15 de abril de 2020 no blog Scielo em Perspectiva, levanta esta preocupação:

Embora a disponibilização de preprints ao público traga muitos benefícios aos pesquisadores, a comunidade científica manifestou preocupação com os jornalistas em interpretar mal as descobertas e ignorar ou excluir o contexto crítico para a compreensão dos resultados preliminares de uma pesquisa. Eles também temem que jornalistas, que não são treinados para identificar falhas metodológicas e alegações enganosas – questões que os especialistas pegariam durante a avaliação por pares – irão embasar alguma cobertura noticiosa em descobertas problemáticas. Tais erros e deficiências são particularmente problemáticos durante uma pandemia mortal, quando o público confia nos meios de comunicação para obter informação precisa e atualizada, incluindo orientações sobre como permanecer saudável e seguro”, afirma Orway.

Assim, o artigo sugere que “os jornalistas devem evitar caracterizar as descobertas de preprints como fatos estabelecidos”. O mesmo vale para o usuário comum das redes sociais, que costuma replicar notícias nas redes sociais.