De queda no número de mortes à acidificação do sangue: médico distorce informações sobre a COVID-19

 De queda no número de mortes à acidificação do sangue: médico distorce informações sobre a COVID-19

Recebemos, por meio de parceria com o aplicativo Eu Fiscalizo da Fiocruz (disponível para Android e iOS), o vídeo do médico Ulysses José Guedes Gomes tecendo falsos comentários sobre a pandemia de COVID-19. Na gravação, o médico realiza afirmações desde a redução no número de mortes e um exagero no trabalho da imprensa brasileira, como também a ineficácia no uso das máscaras.

Médico Ulysses Gomes em vídeo levantando falsas informações sobre a pandemia de COVID-19. Imagem: Reprodução da internet

O médico que é ginecologista e já foi candidato à deputado federal (PP-DF) inicia o vídeo diretamente de um aeroporto, fala de como o espaço encontra-se vazio e aproveita para afirmar que o fechamento de comércios, em decorrência da pandemia vem destruindo a economia. É neste contexto, ele cita que o país está “criando atestados médicos com dados que na realidade não condizem com a causa mortis verdadeira”. Como justificativa, o médico diz que as informações são da imprensa portuguesa: “Portugal, a mídia está mostrando que o Brasil está alterando dados para poder manter a pandemia”.

Com informações do Uol, a reportagem citada pelo médico é da emissora portuguesa RTP, veiculada em 21 de junho de 2020, alegava erroneamente que hospitais no Brasil estão registrando incorretamente óbitos por covid-19. Não é apresentada nenhuma fonte oficial confirmando as alegações, apenas a história de uma pessoa que faleceu e teve a causa da morte questionada por um familiar, que diz não ter sido pela covid-19.

As mencionadas informações são ilustradas neste trecho da matéria: “Há hospitais brasileiros que estão a registar como óbitos por Covid pessoas que não morreram de Covid. Em causa parecem estar subsídios dados pelo governo federal às câmaras e aos governos estaduais por cada vítima do novo coronavírus. Como há dinheiro a ganhar se declararem óbitos por Covid, muitos médicos registram como morte por Covid óbitos que nada têm a ver com a pandemia. A situação está a inflacionar o número de vítimas no país”.

De acordo com o Uol, a União disponibiliza verbas para que estados possam usá-las para o combate ao vírus – hospitais de campanha e compras de equipamentos de proteção, entre outras ações -, mas não há relação entre o número de infectados e de mortos com os repasses.

Em outra ocasião, o NUJOC Checagem verificou uma falsa informação sobre queda no número de mortes por COVID-19. Na época, a fake news questionava o número de 100 mil óbitos. O vídeo recebido pela nossa equipe acusava que houve uma redução misteriosa do registro de mortes por outras doenças, como cardiovasculares, por exemplo, enquanto os óbitos pelo novo coronavírus despontam em ascensão. Confira aqui.

E sobre a acidificação no sangue por causa das máscaras? – Com informações do Projeto Comprova, Infectologistas consultados desmentiram que as máscaras tornam o sangue ácido. Os profissionais afirmaram que o ar entra e sai através dos poros da máscara (ainda que não sejam visíveis) e que não há como inspirar o próprio gás carbônico.

A OMS listou algumas das desvantagens do uso contínuo da máscara, que pode agravar quadros de acne e provocar lesões na pele. Em relação à respiração, pode ocorrer algum tipo de dificuldade respiratória. No entanto, não há nada a respeito da inalação de gás carbônico ou acidificação do sangue.

O médico que produziu o vídeo – Além do vídeo checado nesta matéria, Ulysses Gomes já se envolveu em outras fake news como sugerindo “altas doses” de vitaminas C e D para prevenção da COVID-19; afirmando que a quarenta não funciona no Brasil e “é simplesmente de caráter político, mais nada”. Segundo o site Metrópoles, o médico já foi processado por um paciente que perdeu parte da perna após aplicações de ozônio pelo ânus.

Fora o processo, o médico também foi denunciado ao Conselho Regional de Medicina (CRM-DF), contudo Ulysses Gomes foi absolvido.

Edison Mineiro