Deputado e jornalista atacam eficácia do lockdown contra a pandemia

 Deputado e jornalista atacam eficácia do lockdown contra a pandemia

Carlos Jordy denuncia os “esquerdistas” e Augusto Nunes afirma que a OMS não sabe nada sobre o novo coronavírus

O aplicativo Eu Fiscalizo, disponível para Android e iOS, encaminhou para a equipe do NUJOC Checagem denúncia de uma postagem no Facebook. Trata-se de comentário feito pelo deputado federal Carlos Jordy (PSL-RJ), a partir de opinião do jornalista Augusto Nunes no canal Jovempannews. Confira a íntegra do material aqui.

A postagem do deputado diz o seguinte:

“Argentina tem seu pior dia em número de casos e de mortes. Onde estão os esquerdistas que diziam que a política de lockdown dos argentinos estava salvando vidas? Quebraram a economia e, agora que o vírus chegou lá, o desastre é econômico e sanitário.”

A Argentina teve de fato o pico da pandemia no dia 05 de agosto. Leia mais sobre isso aqui, na reportagem do UOL. Afora isso, o comentário do deputado não se sustenta nos fatos.

Prova – O deputado usa o trecho da entrevista de Augusto Nunes para provar seu ponto de vista. Ocorre que Augusto Nunes faz um comentário, não uma reportagem ou uma investigação aprofundada sobre o pico de casos na Argentina.

O direito à livre expressão é um dos fundamentos da democracia, por isso nós do NUJOC Checagem não nos atemos a avaliar a opinião, seja de qual matiz ela for. Nesse tipo de postagem, o que interessa para nós é verificar se as informações que embasam a opinião têm algum fundamento nos fatos.


O comentário do deputado no Facebook e o vídeo de Augusto Nunes: contra o lockdown. Imagem: Reprodução/Facebook

Sobre o lockdown, o jornalista afirma que não é medida eficaz: “A Argentina fez o lockdown. Aí tá uma coisa que já se percebeu: lockdown não resolve”.

O lockdown é medida eficaz para conter o novo coronavírus. Os números mostram isso claramente. As exceções ficam por conta de países que adotaram medidas igualmente eficazes para sua realidade, considerando aspectos como o isolamento geográfico. Combinado a testagem em massa e a medidas de higienização, o lockdown garante a contenção do contágio e a melhor preparação do sistema de saúde para atender os casos graves da Covid-19.

A discussão que parece conduzir o comentário do jornalista é a que coloca as medidas de isolamento como principal causa dos prejuízos econômicos. Algo como: de que adiantou o lockdown se agora a Argentina está em surto de casos?

A relação entre as medidas sanitárias e a economia não é linear nem imediata. É certo que as medidas impactaram a economia no mundo todo, e o Brasil não é uma ilha. Mas também é certo que as medidas de isolamento contribuíram para conter o número de casos e de vítimas fatais. No longo prazo, a preservação da vida humana é o ativo mais importante para voltar a mover a economia.

Em seguida, Nunes ataca a imprensa. Ele atribui a ela um suposto silenciamento sobre o caso da Argentina, pois os números lá mostrariam que o lockdown não teria eficácia como medida para conter a pandemia do novo coronavírus: “Enquanto aqui as coisas vão melhorando visivelmente, para tristeza da imprensa de necrotério. Não noticia nada do que nós estamos falando aqui!”.

Aqui o jornalista avança para além dos fatos: a imprensa não é um bloco com uma só ideologia, há veículos mais ou menos alinhados com o governo. Como ensinou o venerável jornalista Ruy Barbosa, o papel da imprensa é vigiar as instituições, e nesse sentido podem ser entendidas as críticas ao governo pelos veículos que o jornalista chama de “imprensa de necrotério”.

Se é fato que alguns veículos adotam o viés sensacionalista para falar sobre a pandemia, também é fato que outros veículos, mais alinhados ao governo, tendem a destacar apenas ou preferencialmente os dados positivos ligados ao novo coronavírus. A “imprensa de necrotério” serve para contrabalançar a visão edulcorada da “imprensa cor-de-rosa”.

Sabe nada – No final de sua fala, Augusto Nunes afirma que a Organização Mundial da Saúde não sabe nada sobre a pandemia: “A gente tem poucas certezas, e uma delas é que não se pode acreditar em nada do que fala o pessoal da Organização Mundial de Saúde”.

A afirmação não se sustenta nos fatos. A OMS é a entidade máxima em nível mundial para os assuntos relacionados à saúde. Ela também está sujeita a erro, mas isso não autoriza a inferir que a entidade não entende nada de saúde. Equivale a afirmar que a Fifa não entende nada de futebol, ou que a Academia de Hollywood não entende coisa alguma de cinema.

A opinião expressa pelo jornalista demonstra apenas o viés ideológico que permeia toda a sua fala. O NUJOC Checagem já verificou outras mensagens com tom ideológico e opinativo, como esta aqui, que mostra a leitura liberal da pandemia pelo grupo Brasil Paralelo.

A liberdade de expressão é o que garante que tanto as críticas da imprensa como aquelas feitas contra ela tenham espaço na mídia. Desde que se sustente nos fatos, a crítica é legítima. Caso contrário, é apenas mais uma opinião entre tantas, como as aqui expressas pelo jornalista Augusto Nunes e pelo deputado federal Carlos Jordy.