Falso: novo coronavírus não foi criado intencionalmente em Wuhan

 Falso: novo coronavírus não foi criado intencionalmente em Wuhan

Médica chinesa faz afirmações sem provas de que a China criou o SARS-CoV-2 em laboratório

A médica virologista chinesa Li-Meng Yan afirmou que o novo coronavírus foi produzido em laboratório na cidade de Wuhan. A informação está sendo compartilhada pelo Instagram e chegou até nossa equipe por denúncia do aplicativo Eu Fiscalizo, da Fundação Oswaldo Cruz. As declarações foram dadas em 11 de setembro no programa britânico Loose Woman, que você pode acessar aqui.

Li-Meng Yan afirmou que há comprovação da origem do vírus no genoma do micro-organismo, e que vai publicar um artigo com evidências científicas que comprovariam essas alegações. “A sequência do genoma é como a impressão digital humana. Com base nisso, pode reconhecer e identificar essa coisa. Assim, utilizei as provas existentes na sequência do genoma de SARS-CoV-2para dizer às pessoas por que é que isso veio da China, por que é que eles foram os únicos que o fizeram.”

Segundo ela, o vírus não é proveniente da natureza, mas sim de um experimento do instituto militar da China que descobriu que a modificação laboratorial de dois organismos, batizados de CC45 e ZXC41, originava um novo vírus. Outra mensagem do Instagram sobre o assunto anuncia: “Médica chinesa diz que Covid-19 foi criada em laboratório e OMS sabia mas mandou ela se calar”.

A informação de que o SARS-CoV-2 foi produzido artificialmente em laboratório não procede. Em várias outras ocasiões, já circularam rumores semelhantes, de que o vírus que causa a Covid-19 foi produzido intencionalmente pela China. Os especialistas que negaram essas informações afirmam que a análise do vírus permite constatar que ele foi na verdade o resultado de mutação de um vírus de origem animal. A origem provável se deu a partir do contato e mutação do vírus em humanos, como ocorre com outros tipos de coronavírus. Confira algumas das checagens que negam a origem artificial do vírus aqui e aqui.

Sem revisão – Conforme matéria do site Canaltech, os especialistas ouvidos sobre as declarações da médica afirmam que o estudo por ela conduzido não apresenta revisão pelos pares e suas alegações carecem de fundamento.

Conforme o Canaltech, o virologista Arinjay Banerjee, da Universidade McMaster em Ontario, no Canadá, rebateu a afirmação da pesquisadora, que no artigo diz que o sequenciamento genético do SARS-CoV-2 é uma evidência de que ele foi criado com o uso de enzimas que funcionam como “tesouras moleculares” que adicionam ou subtraem material genético. No entanto, o especialista diz que todas as sequências de DNA da natureza possuem locais de restrição. “A evidência apresentada aqui é anedótica”, diz.


Li-Meng Yan: afirmação sem provas e apoio da direita conservadora americana. Captura de tela/Instagram

A mesma matéria do Canaltech aponta que a médica divide a autoria com outros três pesquisadores que são vinculados à Rule of Law Society, fundada por Stephen K. Bannon, ex-conselheiro de Donald Trump. Confira a matéria na íntegra aqui.

A suposta origem em laboratório do novo coronavírus, como fabricação intencional feita pelo governo chinês, é estimulada pela guerra comercial atualmente em curso entre o gigante asiático e os Estados Unidos. No Brasil, um aliado político do governo Trump, as teorias que culpam a China pela criação do vírus tiveram forte acolhida sobretudo nos segmentos conservadores.

“Vírus chinês” – Alguns veículos de imprensa brasileiros e setores do governo, inclusive, referem-se ao novo coronavírus como o “vírus chinês”, o que contribui para associar a imagem do país oriental com a pandemia, o medo e a recessão econômica. Nada disso, contudo, tem qualquer fundamento nos fatos.

Outras mensagens sobre a suposta fabricação intencional do vírus pela China já foram checadas pela equipe do NUJOC. Nesta aqui, checamos a mesma afirmação feita por um médico brasileiro. Nesta outra aqui, verificamos a mensagem que deu origem ao boato, as declarações do médico francês Luc Montagnier.