Na Europa reabertura das escolas não aumentou o contágio pelo novo coronavírus, afirma estudo

 Na Europa reabertura das escolas não aumentou o contágio pelo novo coronavírus, afirma estudo

Recebemos, por meio de parceria com o aplicativo Eu Fiscalizo da Fiocruz (disponível para Android e iOS), uma mensagem que circula nas redes sociais sobre o estudo promovido pelo Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC). O estudo, que aponta como um dos resultados a reabertura das escolas não ter impacto significativo na transmissão comunitária da Covid-19, está sendo utilizado pelo ex-ministro Osmar Terra como crítica às medidas de distanciamento social.

O deputado federal (MDB-RS) utilizou suas redes sociais para divulgar o estudo, por meio de publicação da Folha de São Paulo, conforme apontam as imagens abaixo:


Publicação que incita a reabertura das escolas /Reprodução do instagram de Osmar Terra

Segundo a última imagem, pressupõe-se que Osmar deseja focar nos resultados da pesquisa desenvolvida pelo ECDC. No entanto, na própria matéria produzida pela Folha há ressalvas que o estudo não pode ser aplicado à realidade brasileira. Além de que a reabertura das escolas acontece em um período que o número de transmissão e mortes nos países europeus estudados estão em baixa:

Não há parâmetros para comparar a situação brasileira com a europeia, porque a doença atingiu os territórios em momentos diferentes, com outro grau de conhecimento sobre sua dinâmica, prevenção e tratamento. Além disso, a Europa adotou restrições duras, derrubou rapidamente o número de novos casos e implantou um sistema eficiente de testes e rastreamento, com raras exceções.

Publicado no dia 06 de agosto, o artigo em questão tem por título COVID-19 in children and the role of school settings in COVID-19 transmission. O estudo trouxe os resultados após acompanhar de perto 31 países europeus em três níveis básicos de educação, ou seja, fundamental, primário e secundário. Entre as conclusões indicadas, além da reabertura não causar impacto significativo sobre a transmissão comunitária; fechar escolas não é, isoladamente, uma medida eficaz para conter a transmissão de coronavírus; abrir ou não é uma medida que depende muito da capacidade de implantar outros mecanismos de controle do contágio.

Apesar de não haver informações conclusivas do papel das crianças na transmissão do novo coronavírus, muitos países tomaram a decisão de fechar as escolas, utilizando os dados da transmissão da Influenza, de acordo com o estudo realizado pela agência europeia.

Ainda com informações da matéria da Folha, na Europa as escolas começaram a fechar em março e, no final do mês de abril, 80% dos governos pararam as creches e pré-escolas, 90%, o ensino primário (de 5 a 11 anos) e 100% o ensino secundário (de 12 a 18 anos). Estônia, Finlândia, Islândia e Suécia foram os quatro países que nunca encerraram a pré-escola, e dois mantiveram abertas também as primárias (no caso da Suécia e Islândia).

Mesmo com um retorno gradativo ainda em maio, medidas sanitárias e distanciamento físico entre estudantes e colaboradores das escolas continuam a ser mantidos com a finalidade prevenir possíveis contágios.

O ECDC observa que menos de 5% dos casos de Covid-19 nos 31 países ocorreram com menores de 18 anos e, nos países que fizeram estudos de anticorpos, o contato de crianças e jovens com o novo coronavírus se revelou ligeiramente menor que entre adultos.

Medidas de fechamento ou reabertura das escolas durante a época de pandemia são complexas por todo o mundo e merecem atenção, conferindo destaque para o contexto e questões inerentes aos aspectos socioeconômicos de cada país. De acordo com a Exame, em matéria publicada no dia 09 de agosto, em apenas duas semanas, a reabertura das escolas nos Estados Unidos ocasionou a infecção de 97 mil crianças pelo coronavírus. Os dados foram divulgados pela universidade Vanderbilt, que coordena um estudo financiado pelo governo envolvendo kits caseiros de testes. Dos cerca de 5 milhões de casos da doença no país, 380 mil foram registrados em crianças.

Os dados foram coletados nas últimas duas semanas de julho. No mês passado, 25 crianças morreram em função do coronavírus. Segundo a rede de TV CBS, o trabalho da Vanderbilt tem como objetivo avaliar o índice de propagação do vírus entre as crianças e o papel que elas acabam tendo na disseminação da doença.

A reabertura das escolas no Brasil – No Brasil, apenas 04 unidades da federação apresentaram uma data de previsão para a reabertura das escolas depois da suspensão das atividades presenciais. Entre as capitais, só duas têm uma data para um retorno proposto. Com informações do Jornal de Brasília, a ausência de coordenação e orientação do governo federal sobre parâmetros seguros de saúde dificulta o planejamento para a volta às aulas presenciais. O Ministério da Educação não criou até o momento nenhum protocolo de retorno ou anunciou apoio financeiro às redes de ensino.

Levantamento feito pela Folha de S.Paulo indica que apenas o Amazonas, Distrito Federal, São Paulo e Paraná já definiram uma data de retorno, ainda que as autoridades afirmem ser apenas uma previsão. Nos três estados, contudo, as redes municipais das capitais seguiram a definição de data e ainda afirmam estudar o retorno. Entre as capitais, apenas São Luís (MA) e Belém (PA), apresentaram datas para retornar às aulas. As duas planejam a volta para setembro.

Os planos de retomada são tímidos e batem também de frente com a oposição de muitos pais e professores. Em entrevista para O Estado de Minas, o pneumologista Maurício Meireles, coordenador do Hospital da Baleia, pontua que o esquema de retorno às aulas deve ser cuidadosamente planejado. “Para evitar aglomerações, com horários de entrada diferentes, grupos de estudo menores, intercalados com aulas virtuais, salas de aulas ventiladas, marcação de distanciamento, além de um intenso treinamento dos professores e monitores”, diz.

Os planos de retomada também dependem da situação da epidemia em cada região, segundo o especialista. “A volta às aulas deverá ser diferente em cada estado e até em cada cidade. Vai depender de como estão os indicadores de transmissão, internações e leitos de unidades de terapia intensiva (UTI). Em Belo Horizonte, esses números não estão controlados ainda, portanto, não seria o momento (de retornar). Em outras cidades, é preciso analisar os indicadores”, defende.

Desde o princípio da pandemia com as posteriores medidas de isolamento social, o ex-ministro Osmar Terra se declara contrário, além de utilizar suas redes sociais, conforme discutido nesta matéria, para demonstrar tal posicionamento. Em abril, por exemplo, foi flagrado pela CNN em uma conversa com o ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, na qual dizia que o coronavírus deve fazer “entre 3 mil e 4 mil mortos”, o que classificou como “menos do que uma gripe sazonal”.

As decisões de fechamento das escolas, assim como todos os critérios relacionados ao isolamento social têm sido defendidos pelas mais importantes entidades sociais e sanitárias da sociedade civil. A Organização das Nações Unidas (ONU), por exemplo, se posiciona da seguinte forma no atual momento da pandemia:

A decisão é complexa porque a pandemia continua a evoluir, e não de uma forma linear. Não há evidências suficientes sobre os riscos de transmissão. Em todos os lugares, o isolamento será suspenso de maneira gradual, com muitos pontos de interrogação sobre como o processo será administrado, em grande parte porque o vírus apresenta muitas características que nós simplesmente desconhecemos. Entretanto, mesmo com as incertezas atuais, os governos podem antecipar e se preparar para reabrir as escolas com sucesso, colocando em prática as medidas de segurança necessárias.

Recentemente, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, pediu aos governos e aos doadores que priorizem a educação para todas as crianças, incluindo as mais marginalizadas. A Coalizão Global de Educação foi criada para apoiar os governos no fortalecimento do ensino a distância e na facilitação da reabertura das escolas.

Publicado em junho, o artigo discute, trazendo especialistas, que durante todo o processo é necessário consultar e se comunicar com pais, professores, estudantes e comunidades, para entender suas preocupações. Isso garante a confiança e o apoio à reabertura de uma escola, um pré-requisito para fundamentar as políticas educacionais, o financiamento e as medidas operacionais.

A principal mensagem deve ser a de que essas decisões são específicas aos diferentes contextos e dependem da capacidade das escolas para mitigar os riscos de transmissão de infecções e promover comportamentos saudáveis. As condições básicas a serem avaliadas incluem o acesso a sabão e água limpa para a lavagem das mãos e protocolos de distanciamento social. A segurança também pode se dar pela redução do número de estudantes no local (por meio de turnos duplos), pela priorização dos anos iniciais ou de grupos específicos, ou pela continuação do uso de uma abordagem de aprendizagem mista.