OMS apoia a reabertura de economias, mas o isolamento social salvou milhares de vida em todo o mundo

 OMS apoia a reabertura de economias, mas o isolamento social salvou milhares de vida em todo o mundo

Edison Mineiro e Sane Araújo

Recebemos, por meio de parceria com o aplicativo Eu Fiscalizo da Fiocruz (disponível para Android e iOS), duas mensagens que circulam nas redes sociais apontando o apoio da Organização Mundial de Saúde (OMS) em relação a retomada de economias em todo o mundo.

A primeira postagem, que foi realizada pelo Coordenador Regional de São Paulo do Movimento Conservador Dylan Dantas, traz ainda o seguinte fragmento da fala do Diretor da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus: “Quarentenas causaram grandes prejuízos”. Enquanto isso, a segunda publicação corresponde a um vídeo do perfil carmeloneto no instagram comentando o fato de que a Organização Mundial da Saúde se pôs a favor da reabertura das atividades econômicas após meses de quarentena em diversos países, onde ele afirma que o Presidente Jair Bolsonaro, que sempre se colocou contra a quarentena realizada no país estava certo.

Postagem de ativista conservador trata do apoio da OMS à reabertura de economias. Imagem: Reprodução/Instagram
Carmelo Neto, pré-candidato a vereador em Fortaleza (CE) utiliza parte de discurso do diretor-geral da OMS para questionar as medidas de distanciamento social. Fonte: Reprodução/Instagram

Com informações do Uol, o diretor-geral da OMS realmente promoveu tal depoimento. No dia 04 de setembro, a autoridade de saúde pública informou que discutiu o processo de reabertura de economias e fronteiras com os países do G-20, após as restrições de movimento impostas pelo avanço do coronavírus. “Isso é algo que a OMS apoia completamente. Quarentenas são um instrumento pesado, que causaram grandes prejuízos em muitos países”, afirmou, em entrevista coletiva em Genebra, na Suíça.

No entanto, a reabertura não deve acontecer de modo drástico. Tedros Adhanom estimulou os governos a seguirem uma série de medidas para garantir uma retomada segura, entre elas evitar grandes eventos e proteger grupos sociais mais vulneráveis. “Com a combinação certa de medidas direcionadas e personalizadas, outros bloqueios nacionais podem ser evitados”, frisou, acrescentando que, mesmo ainda haja desafios, está “encorajado” com a evolução da resposta à pandemia.

Com a contextualização da fala do diretor-geral da OMS, fica nítido o caráter tendencioso das postagens analisadas. Ao expor uma parte do depoimento, tanto Dylan Dantas como Carmelo Neto utilizam argumentos para testar a eficácia do isolamento social. O tema com respaldo científico merece ser novamente discutido aqui.

Para se ter ideia do tempo em que o isolamento social é recomendado, no dia 31 de março, a diretora da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), Carissa Etienne, disse que a pandemia de COVID-19 é grave e que os países das Américas precisam fazer tudo o que estiver ao alcance para mitigar o impacto da doença.

“Sem evidências robustas sobre tratamentos eficazes e sem vacina, o isolamento social e outras medidas preventivas agressivas seguem sendo nossa melhor opção para a população poder evitar as consequências mais sérias da pandemia de COVID-19 em nossa região”, destacou.

Além disso, Carissa também pontuou na época a importância das pessoas permanecerem em casa. “A única maneira de sair dessa situação será se todos fizermos nossa parte. Cada um fazendo a sua enquanto apoiamos os outros. Os países devem trabalhar juntos, compartilhar recursos e conhecimentos e tomar decisões conjuntas que acelerem o acesso a serviços de saúde, além de promover inovação e investigação, e aumentar a nossa capacidade de poder enfrentar essa pandemia”, disse Etienne.

O Isolamento Social salva vidas – Recomendado pela OMS desde que a COVID-19 se tornou uma pandemia e também como uma medida não farmacológica, em decorrência da ausência de um tratamento com medicamento específico, o isolamento social tem salvado vidas.

Com informações da BBC Brasil, um dos principais modos de transmissão do novo coronavírus ocorre quando alguém tosse ou espirra e, assim, libera gotículas com o agente patogênico, que ficam no ar ou recaem sobre superfícies.

O indivíduo pode ser contaminado ao respirar essas partículas ou após tocar objetos infectados e levar as mãos aos olhos, ao nariz ou à boca.

Quanto menor o contato social, menor a chance de que esses cenários aconteçam e maior a probabilidade de o país conseguir “achatar a curva” de infecção.

Em simulação também promovida pela BBC Brasil mostra que, ao reduzir em 50% seu contato social, uma pessoa infectada reduziria seu potencial de contágio de 406 pessoas em um mês para apenas 15 pessoas.

Isso porque estimativas indicam que, a cada cinco dias, uma pessoa com o vírus infecta 2,5 outras. Assim, em um cenário sem nenhuma redução na socialização, o paciente original e aqueles contaminados por ele acabariam por totalizar 406 infecções.

Estudos de como o isolamento salvou vidas – Com informações do G1, pesquisadores da Unicamp calcularam quantas vidas o isolamento social está salvando. Eles consideraram as taxas de transmissão do novo coronavírus, ou seja, para quantas pessoas cada doente transmite o vírus.

Antes das medidas de isolamento social, essa taxa era de 2,15. Cada infectado passava o vírus para mais de duas pessoas. Em maio, a taxa já era de 1,59. Com esses dados, os pesquisadores estimaram quantos poderiam ser os casos de Covid-19 se não fossem as medidas de isolamento.

Enquanto isso, em estudo publicado em junho a estimava era que 3 milhões de vidas foram salvas na Europa devido às medidas de isolamento social.

Segundo El País, um estudo divulgado calcula quantas vidas foram salvas em 11 países europeus, graças a medidas de isolamento social contra a covid-19, que são essencialmente as mesmas de 1918. O trabalho calcula que o distanciamento social em diferentes intensidades imposto primeiro na Itália, depois na Espanha e, finalmente, nos demais países analisados, conseguiu salvar as vidas de mais de três milhões de pessoas. Somente na Espanha, cerca de 450.000 mortes Covid teriam sido evitadas, estima o trabalho, publicado na revista Nature.

O estudo foi realizado pela equipe de modelagem de dados liderada pelo Imperial College London, que colabora com a Organização Mundial de Saúde no estudo de epidemias. Além da Espanha, foram estudados Áustria, Bélgica, Dinamarca, França, Alemanha, Itália, Noruega, Suécia Suíça e Reino Unido. O trabalho usa a cifra de mortes em cada país para estimar o número de infecções ocorridas cerca de duas semanas antes e segue a trajetória delas desde o início da epidemia até 4 de maio, quando alguns países já começaram a relaxar as medidas de prevenção.

O trabalho mostra que as medidas tiveram efeito e que em todos os países verificados ​​o número reprodutivo (quantos novos casos existem para cada pessoa infectada já registrada) caiu abaixo de um, considerado um nível que já impede a propagação do vírus. Se nenhuma ação tivesse sido adotada, os especialistas estimam que esses países teriam registrado mais 3,1 milhões de mortes.

O NUJOC Checagem em outras ocasiões também ressaltou a importância do isolamento social, confira aqui.