Publicação desconsidera os pacientes que precisam de transplante de fígado em decorrência do Kit COVID

 Publicação desconsidera os pacientes que precisam de transplante de fígado em decorrência do Kit COVID

A publicação da página bolsonarista “Aliados Brasil Oficial” no instagram afirma que são falsos os casos de pacientes que recorreram ao transplante de fígado após o uso da ivermectina. No post, portanto, há o posicionamento em defesa do medicamento: “Ivermectina não tem metabolização hepática, paracetamol é uma das medicações que mais afetam o fígado e dipirona é proibida nos Estados Unidos”. O material para análise foi enviado até nossa equipe por meio do aplicativo Eu Fiscalizo (Disponível para Android e IOS).

Post da página “Aliados do Brasil Oficial” trata como mentira os pacientes que precisam de transplante de fígado, defendendo o Kit COVID. Imagem: Reprodução/Instagram

A publicação saiu logo depois de notícia veiculada pelo jornal O Estado de São Paulo: “Após uso de kit covid, pacientes vão para fila de transplante de fígado; pelo menos 3 morrem” do dia 23 de março. De acordo com o periódico, hemorragias, insuficiência renal e arritmias também estão sendo observadas por profissionais de saúde entre os pacientes que fizeram uso desse grupo de drogas, que incluem hidroxicloroquina, azitromicina, ivermectina e anticoagulantes. O aumento relatado por médicos de pacientes que chegam ao pronto-socorro com algum efeito relacionado ao uso desses remédios coincide com o agravamento da pandemia.

Já verificado em outras oportunidades aqui no Nujoc Checagem. O tratamento precoce contra a COVID-19 não possui eficácia. A Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), inclusive, já se posicionou sobre o uso de tais medicações:

“As evidências disponíveis sobre benefícios do uso de cloroquina ou hidroxicloroquina são insuficientes, a maioria das pesquisas até agora sugere que não há benefício e já foram emitidos alertas sobre efeitos colaterais do medicamento. Por isso, enquanto não haja evidências científicas de melhor qualidade sobre a eficácia e segurança desses medicamentos, a Opas recomenda que eles sejam usados apenas no contexto de estudos devidamente registrados, aprovados e eticamente aceitáveis.”

Confira o texto na íntegra.

A Ivermectina, tema desta checagem, não é promissora no tratamento a COVID-19. Os resultados das pesquisas feitas até agora são contraditórios. Entre elas uma do Centro Internacional de Doenças Diarreicas de Bangladesh, por exemplo, até revela uma diminuição da carga viral dos pacientes com covid-19, sem que isso resulte numa melhora significativa dos sintomas. 

Um trabalho do Instituto de Saúde Global de Barcelona, na Espanha aponta que o uso da ivermectina aliviou um pouco os incômodos da infecção num grupo de voluntários tratados. Porém os próprios autores admitem a necessidade de testes clínicos maiores para confirmar as observações.

Nesse sentido, fica perceptível que essas investigações são muito pequenas, com poucos participantes, e não têm significado prático. Tanto que as principais entidades de saúde do mundo, como os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, não indicam o uso dessa droga como tratamento da covid-19.

Hepatite medicamentosa e transplante de fígado – Retornando à notícia dos pacientes que precisaram de transplante de fígado, quatro deles foram atendidos no Hospital das Clínicas da USP e o outro no HC da Unicamp. “Eles chegam com pele amarelada e com histórico de uso de ivermectina e antibióticos. Quando fazemos os exames no fígado, vemos lesões compatíveis com hepatite medicamentosa. Vemos que esses remédios destruíram os dutos biliares, que é por onde a bile passa para ser eliminada no intestino”, diz ao Estadão Luiz Carneiro D’Albuquerque, chefe de transplantes de órgãos abdominais do HC-USP e professor da universidade. Sem esses dutos, explica ele, substâncias que podem ser tóxicas ficam na circulação sanguínea, favorecendo quadros infecciosos graves. “O nível normal de bilirrubina é de 0,8 a 1. Um dos pacientes está com mais de 40”, conta ele.

O médico relatou ainda que, dos quatro pacientes colocados na fila do transplante no HC, dois tiveram doença aguda e morreram antes da operação.

Com informações do VivaBem do UOL, um ponto importante é entender que os medicamentos presentes no “kit covid”, usados separadamente e para as doenças que comprovadamente ajudam a tratar, não apresentam alto grau de toxicidade —isso se tomados com orientação e acompanhamento médico, doses corretas, pelo tempo certo e nunca por conta própria. Mas não é o que está acontecendo durante a pandemia de covid-19. Indicada pelo presidente Bolsonaro, a combinação desses medicamentos pode gerar problemas e seu uso é considerado “uma bomba” pelos médicos.

Andréia Evangelista, hepatologista do Centro Avançado Hepatobiliar do Hospital São Vicente de Paulo (RJ) e professora na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) ressalta ao UOL que não existe tratamento precoce que funcione contra a COVID-19 até o momento. “Não temos evidências robustas de que esses medicamentos previnam a doença ou evitem que ela evolua”, fala. “Os pacientes estão desafiando o fígado. Se a vizinha tomou algo e não teve nada, sorte dela, mas não faça isso.”

A médica também conta a situação de um paciente que a procurou por alterações nas enzimas hepáticas, presentes no fígado. “Descobrimos que ele estava tomando ciclos de ivermectina porque ‘ouviu falar em algum lugar’ e não pode. O remédio é de dose única e usado para piolhos e vermes”.

No portal G1, encontra-se uma enumeração de causas, sintomas, diagnóstico, alteração no fígado e tratamento relacionado a hepatite medicamentosa. Vale ressaltar, que a enfermidade é causada pelo efeito tóxico no organismo com a ingestão em altas doses de medicamentos. A hepatite medicamentosa também pode ser ocasionada por paracetamol, repetindo, em casos de dosagens em excesso.

Por último, no post de Aliados Brasil Oficial há uma menção que a dipirona é proibida nos Estados Unidos. A informação é falsa. De acordo com a Folha nos EUA, a droga foi proibida em 1977 para uso comum. Relatório de novembro daquele ano do FDA (Food and Drug Administration) -a Vigilância Sanitária americana- classifica a dipirona como “insegura”. O documento é usado até hoje e diz que “seu uso deve ser restrito ao seu efeito antipirético (contra febre) quando há sério risco de vida e quando drogas, como o ácido salicílico, são ineficazes ou contra-indicadas”.

Edison Mineiro