Tratamento precoce sem lockdown funciona?

 Tratamento precoce sem lockdown funciona?

Recebemos, por meio do aplicativo Eu Fiscalizo da Fiocruz (disponível para Android e IOS) um vídeo que está circulando no WhatsApp de uma entrevista do médico infectologista, Dr. Francisco Cardoso no programa Pânico da rádio Jovem Pan. Na entrevista, ele defende o tratamento precoce e distanciamento social que não é a mesma coisa que lockdown. O vídeo foi postado no Youtube, no canal “Pela Ordem” que recebe a titulação: “Infectologista dá invertida em jornalista e mostra a diferença entre ciência e achismo político”. A publicação já recebeu quase 80 mil visualizações e está circulando nas redes sociais. O vídeo também está disponível na página  Pânico Jovem Pan do youtube e possui mais de 113 mil visualizações.  

No que diz respeito ao tratamento precoce, o entrevistado defende que a medida não deveria ser polêmico, e que isso acontece porque existe uma politização equivocada desse recurso, uma vez que aqueles que defendem estão de um lado do espectro político e aqueles que não defendem o uso estão do outro lado. Para ele, mesmo que a agência reguladora nacional ANVISA tenha mostrado que não existe comprovação científica para adotar o uso de tais medidas profiláticas, isso não anula o fato de que existem evidências da sua eficácia e, se tratando da medicina, isso é comum. Enfatiza também que possam existir conflitos de interesse envolvidos na não recomendação desse método, patrocinado por alguma empresa.  

A medicina é sempre baseada em evidências que é a mesma coisa que comprovação científica. Quando os níveis das evidências de um tratamento são fracos não é atribuído a ele a comprovação da sua eficácia necessária para entrar em uso. Portanto, qualquer prática que é executada tendo como suporte evidência de baixíssima eficácia é considerada uma má prática médica. E para que práticas de más condutas possam ser evitadas, uma reportagem da F. São Paulo mostrou que desde a criação do termo “medicina baseada em evidências” foi empregado vem-se tentando aumentar a objetividade das decisões clínicas com base no conhecimento obtido e que deveriam adotar padrões como a existência de grupos-controle e à randomização. Esses métodos científicos são usados atualmente para testar a eficácia da ivermectina como tratamento para a COVID-19, por exemplo. Essas abordagens, é enfatizado ainda, são necessárias para diminuir vieses que surgem naturalmente durante a observação de um tratamento.  Por exemplo: uma pessoa pode acabar melhorando graças ao próprio organismo e não por conta do tratamento, e se isso não for observado pode levar o médico a tomar decisões erradas na hora de indicar um tratamento. O método científico abordado aqui serve para catalogar todas as observações e chegar a uma conclusão, essa conclusão ou valida o tratamento ou serve para refutá-lo quando ele não apresenta resultados padronizados.  

O médico Francisco, ao defender o tratamento precoce, um dos seus argumentos é a disponibilização de medicamentos baratos e sem patente, como é o caso da ivermectina. Em matéria da BBC, apresenta que o estudo inicial era a sua dosagem. Para fazer com que o medicamento combatesse o vírus teria que ser ministrado num paciente dosagens de ivermectina dez vezes maiores ao limite considerado seguro. Isso representa um risco de efeitos colaterais gravíssimos e chance de overdose. E até o momento não existe nenhuma pesquisa que comprova a eficácia da ivermectina para tratar ou prevenir a COVID-19, como mencionado na checagem da Agência Lupa

A matéria mencionada anteriormente da BBC, expõe também alguns resultados de pesquisas contraditórias. Numa é revelado uma diminuição da carga viral dos pacientes com COVID-19, mas sem resultar numa melhora dos sintomas; noutra indica que o uso da droga aliviou um pouco os incômodos num grupo de voluntários tratados. Só que os próprios autores admitem a necessidade de testes clínicos maiores para confirmar as observações. Por serem estudos pequenos e com poucos participantes, as principais entidades de saúde do mundo não indicam esse fármaco como tratamento. 

No que concerne a sua defesa do distanciamento social, em contraponto do lockdown que é o distanciamento mais severo, que permite somente o funcionamento e a ida em lugares essenciais como farmácias, supermercados e hospitais.  Ele argumenta que a maior parte da contaminação se dá em residências e que fora de casa, em mercados, shoppings e restaurantes, por exemplo, que possuem o distanciamento correto, ventilação adequada e restrição de pessoas as chances de contaminação são menores. Um estudo brasileiro publicado na Agência Brasil mostrou que o principal local com o menor risco de contaminação é a casa própria. Outro caso que pode ser lembrado que não funcionou do início da pandemia é do Reino Unido que inicialmente adotou apenas o distanciamento social seletivo, no qual somente as pessoas do grupo de risco ficavam em casa e viu os casos acelerarem, precisando recuar para que o sistema de saúde conseguisse suportar a demanda, adotando o lockdown.  

Captura de tela da entrevista do médico Francisco Cardoso. Fonte: Reprodução/Youtube 
 

Camila Sampaio