Vídeo apresenta que Suécia já voltou a normalidade, acusando uma suposta imunização de rebanho da população

 Vídeo apresenta que Suécia já voltou a normalidade, acusando uma suposta imunização de rebanho da população

País escandinavo adotou medidas menos restritivas durante a pandemia de COVID-19, mas sofreu consequências negativas em comparação a vizinhos europeus

Recebemos, por meio de parceria com o aplicativo Eu Fiscalizo da Fiocruz (disponível para Android e iOS), um vídeo que circula nas redes sociais mostrando pessoas numa estação de metrô na Suécia sem nenhuma restrição de distanciamento ou medida protetiva. O vídeo ainda indica o sucesso da imunização de rebanho, por isso, o motivo das pessoas estabelecerem contato físico em ambiente público. A publicação foi realizada pelo ex-ministro Osmar Terra (MDB-RS).

Publicação pressupõe imunidade de rebanho e normalidade na Suécia. Imagem: Reprodução/Instagram

No início da pandemia de COVID-19, a Suécia seguiu em contramão em relação às rígidas medidas de isolamento social dos outros países europeus. O país, em questão, seguiu com bares e restaurantes abertos, enquanto que a população decidia ou não pela quarentena voluntária. Com informações do Uol, a Suécia ainda teve uma estratégia central em priorizar a proteção das pessoas mais idosas, além do comprometimento em subsidiar 90% dos salários dos trabalhadores que fossem afastados temporariamente de seus empregos.

Desde então, o país tem sido utilizado como exemplo por quem critica as medidas de distanciamento social. Não só o deputado federal Osmar Terra, como também o presidente Jair Bolsonaro e outros líderes e dirigentes vinculados ao Governo.

No entanto, com o decorrer dos meses de pandemia e as consequências negativas que foram assolando a Suécia, as próprias autoridades começaram a reconhecer suas falhas. Com informações de O Globo, o país admitiu que deveria ter adotado medidas mais contundentes de isolamento social para conter a pandemia. Em resposta a críticas crescentes sobre a posição do país, o arquiteto da resposta oficial de Estocolmo, baseada em ações voluntárias dos cidadãos, admitiu que uma abordagem mais dura poderia ter evitado o alto número de mortes registrado no país.

“Sim, acho que poderíamos ter feito mais do que fizemos na Suécia, claramente” disse Anders Tegnell, epidemiologista-chefe da Agência de Saúde Pública sueca, à rádio Sveriges. “Se encontrássemos a mesma doença, sabendo exatamente o que sabemos hoje, acho que acabaríamos fazendo algo entre o que a Suécia fez e o que o resto do mundo fez”, frisou.

Contrariando também a suposta normalidade, o primeiro-ministro da Suécia também se posicionou. “A vida não está correndo de maneira normal na Suécia”, afirmou o primeiro-ministro, o social-democrata Stefan Löfven.

Imunização de rebanho – Segundo o Instituto Butantan, antes da pandemia, a expressão “imunidade de rebanho” chamava a atenção para o efeito de proteção que surge em uma população quando uma percentagem alta de pessoas se vacinou contra uma certa doença. Por obra da “imunidade de rebanho”, mesmo quem não está vacinado fica protegido do patógeno causador da doença. Exemplo clássico de vacina que produz imunidade de rebanho quando 95% de uma população a recebeu: a vacina contra o sarampo. Com 95% das pessoas imunizadas, o vírus não circula mais, a doença desaparece e quem não pode tomar a vacina fica protegido.

No mundo de hoje, Depois do novo coronavírus, a expressão se refere a uma interrogação: que percentagem de uma população precisa ter contraído o SARS-COV-2 (e estar presumivelmente imunizado) para que mesmo quem não teve a doença deixe de correr risco de se infectar? Não há dados para responder a essa pergunta, mas há pesquisadores que estimam o número entre 60 e 80%. Quer dizer: quando essa quantidade de pessoas já tiver contraído a doença e adquirido imunidade, o vírus não circula mais e a doença desaparece.

Pois bem, o vídeo divulgado por Osmar Terra associa que como a Suécia não teve medidas severas de isolamento social, boa parte da população chegou a ter contato com o vírus, gerando, portanto, a imunidade de rebanho.

Contudo, tais afirmações levantadas pelo vídeo não tem sustentação científica. Segundo a Agência Lupa, a estratégia adotada pela Suécia de permitir a disseminação controlada da Covid-19 no país para adquirir rapidamente uma “imunidade de rebanho” não foi eficaz, apontou um estudo publicado em agosto no Journal of the Royal Society of Medicine. De acordo com a investigação, as taxas de contaminação registradas em Estocolmo, capital do país, atingiram cerca de 17% da população, número bem inferior ao esperado pelo governo local. Meses antes, uma pesquisa feita pela Agência de Saúde local havia estimado que, em maio, apenas 6,1% dos habitantes continha anticorpos contra o novo coronavírus.

No início da pandemia, quando diversos países adotaram medidas rigorosas para conter a propagação do vírus, o governo da Suécia anunciou que seria mais flexível e, com essa estratégia, esperava que 40% da população estivesse imunizada até maio. A pesquisa publicada discutida aqui indicou, no entanto, que além de ter fracassado em alcançar a imunidade de rebanho, a Suécia contabilizou taxas mais altas de infecção viral, hospitalização e mortalidade quando comparada com os demais países nórdicos. A situação gerou tanta preocupação que, por semanas, as nações vizinhas fecharam as fronteiras com o país.

Por conta também das medidas brandas propostas pelo país, a Suécia fechou o primeiro semestre de 2020 com o maior número de mortes em 150 anos. De acordo com o Uol, o país registrou cerca de 4.500 mortes por covid-19 – um número que aumentou para 5.800 segundo os últimos índices de agosto -, uma porcentagem muito maior da população do que em outras nações nórdicas.

No total, incluindo outras causas, 51.405 suecos morreram no período de janeiro a junho, um número maior do que em qualquer ano desde 1869, quando 55.431 morreram, em parte como resultado de uma crise de fome. A população da Suécia era de cerca de 4,1 milhões na época, em comparação com 10,3 milhões agora.

O número de mortes, assim, ficou cerca de 10% mais alto do que a média do período dos últimos cinco anos. Em abril, o índice foi quase 40% superior à média devido a um aumento nas mortes relacionadas com a COVID-19.