Vespas-mandarinas não foram criadas em laboratório pela China

 Vespas-mandarinas não foram criadas em laboratório pela China

A informação falsa estimula sentimento antichinês em época de coronavírus

No início do mês de maio começou a circular pelas redes sociais um vídeo que mostra o ataque de uma vespa-mandarina a um rato. Em poucos segundos, o inseto, que mede cerca de quatro centímetros de comprimento e 7 de envergadura das asas, mata o roedor. As imagens são descritas com informações em legenda:

“Em plena pandemia por causa do Covid-19, surge uma nova praga, a Vespa assassina. Segundo cientistas dos EUA, esta vespa foi criada em laboratório. Vespa assassina mata um rato em poucos segundos nos EUA. De origem asiática. Nunca tinha sido vista fora da Ásia. Mas esta [sic] se espalhando pelo mundo. E pode atacar humanos. Suas toxinas são letais. Sendo capaz de matar humanos. Surgiu na China, onde saiu [sic] Informações que são um tipo De vespa criada em laboratório. O fato é que estamos diante de uma nova ameaça Chinesa. Ainda falta explicações de como essas Vespas chegou [sic] na América. Se não for contido a seu desenvolvimento, podemos ter sérios problemas de saúde.”


A informação de que a vespa-mandarina foi criada em laboratório da China é falsa. A vespa-mandarina ou vespa-gigante-asiática (Vespa mandarinia magnifica) é uma espécie natural, que compõe o gênero das vespas e é encontrada no leste e sul da Ásia, sudeste da Ásia continental e partes do Extremo Oriente russo, conforme o verbete da Wikipédia dedicado ao inseto.

Imagem do vídeo que circula na internet: mais preconceito do que verdade. Fonte: Reprodução/WhatsApp

Sobre a disseminação nos Estados Unidos, há relatos de que foram encontradas no Noroeste Pacífico da América do Norte no final de 2019, mas sem confirmação de que se estabeleceram por lá. As autoridades americanas já monitoram a natureza à procura dos ninhos para destruí-los.

Predador – A disseminação do inseto causa preocupação para os cientistas, pois a vespa-mandarina é uma predadora natural da abelha europeia e poucos indivíduos da espécie mandarina podem destruir uma colmeia em questão de horas.

Mas as abelhas europeias também têm técnicas de defesa contra a vespa-mandarina. Uma delas é o sufocamento, quando centenas de abelhas europeias aglomeram-se sobre uma vespa-mandarina até que esta seja morta pela temperatura elevada. É o que mostra essa reportagem aqui.

Sobre os riscos para o homem, alardeados no vídeo, eles existem de fato, mas não podem ser superestimados. Os especialistas afirmam que a vespa-mandarina só ataca se provocada, como mostra esta reportagem do G1. Sua picada pode matar, mesmo aqueles que não têm alergia ao veneno.

Estima-se que uma pessoa adulta saudável precise de vinte picadas para vir a óbito. No Japão cerca de 20 pessoas morreram por ano vítimas da picada da vespa-mandarina nas duas últimas décadas. Na China foram 41 mortes em Xianxim em 2013.

Xenofobia – Em tempos de pandemia do coronavírus, especialistas alertam para o crescimento da xenofobia e do racismo, na busca por culpados. A China vem sendo colocada neste lugar, por ter sido o epicentro da doença. No Brasil, membros ligados ao governo falam abertamente sobre o “vírus chinês”, ecoando teorias conspiratórias sem nenhuma base nos fatos.

Passeata de sino-americanos contra a discriminação: “Combata o vírus, não as pessoas”. Imagem: Reprodução/Youtube

A aparição da vespa-mandarina nos EUA tem sido colocada nessa mesma linha de interpretação, com afirmações tendenciosas sobre a suposta criação em laboratório do inseto e sua disseminação intencional. Os fatos até agora mostram que, se há vilões nessa história, eles são o preconceito, a mentira e a desinformação.

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